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Passaporte da cultura
Ao lado dos brasileiros, o povo mais musical que tive oprivilégio de conhecer são os cabo-verdianos. O amor incondicional que nutrem pelo país e pelos seus ritmos não temparalelo. Um amor libertador, que não precisa possuir parase validar. Um amor não exigente, mas que se faz presentena língua que todos aprendem a falar desde o berço — oumelhor, a declamar e a cantar desde o ventre. Não é exagero:todos os cabo-verdianos que conheço são poetas.
Embora se reconheça Cesária Évora como sendo a vozque revelou a alma do arquipélago, existe nas montanhaslongínquas do interior de Santiago um gênero que já sofreraos seus desafios de silenciamento. Uma música catártica,crua e negra com a qual gerações novas se reconciliaram eaprenderam a reivindicar a sua herança africana. A músicacontinua a ser o passaporte da cultura cabo-verdiana nomundo. Está presente em todos os momentos marcantes dahistória do país, e é por meio dela que as memórias ancestrais são catalogadas e transportadas para o futuro.
Um dos músicos mais celebrados da nação é OrlandoPantera, um cometa que viveu na terra por escassos 33 anos.Não gravou nenhum álbum, morreu no dia em que iniciaria,em Paris, as gravações do disco que confirmaria aquilo queos habitantes da ilha de Santiago já sabiam: era um gênio.E um dos poucos que conseguiu transportar para a canção osentir das gentes dos campos, os esquecidos, os seus ritmose desejos.
(Kalaf Epalanga. Minha pátria é a língua pretuguesa: Crônicas.2023. Adaptado)
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